Por mais que eu tente, não consigo compreender. Ninguém consegue enxergar com clareza o que acontece à sua volta. Cada um puxa a sardinha pro seu lado e quem sai perdendo é o consumidor/usuário, que fica sem entender porra nenhuma.
A revista Computerworld publicou ontem uma
notícia informando que o BNDES vai cortar o financiamento das empresas que venderem o
PC para Todos com dupla inicialização ("
dual boot"), dando ao usuário a possibilidade de usar o computador tanto com o Linux quanto com o Windows (no caso, o Starter Edition - sim, aquele que se você estiver no Word ao mesmo tempo em que ouve uma musiquinha no Media Player e trata uma foto no Photoshop não deixa você abrir a calculadora pra fazer uma continha. Só três programas podem ser abertos ao mesmo tempo...).
Em outra
pesquisa, a
Positivo Informática revelou que, depois de 3 meses,
75% dos que compraram a sua versão de PC para Todos instalaram o Windows por cima do Linux.
Eu não vou entrar no mérito dessa discussão - afinal, já tem gente fazendo isso (o Brain, do
BR-Linux, por exemplo). Se o Governo quer ou não salvar sua estratégia Linux, se ela é equivocada ou não - isso eu deixo para os analistas de mercado.
Mas quero abrir um parêntese nessa discussão para abordar um assunto mais geral, aquela pergunta de sempre: para o grande público,
o Linux no Desktop está pronto? Dá pra usar?
Antes de mais nada, um aviso: eu sou usuário de Linux, uso (e recomendo) desde 1996. Tanto em casa como no trabalho uso Linux como sistema operacional para meu dia-a-dia (desenvolvimento, tarefas de escritório, edição de vídeo, entretenimento... a lista é grande). Aliás, o Linux é meu ganha-pão. Ninguém pode, portanto, me acusar de não saber do que estou falando.
Mas respondendo à pergunta sobre Linux no Desktop: se eu disser que SIM, dá pra usar, estaria faltando com a verdade. O Linux e o software livre em geral já conseguiram verdadeiramente cobrir uns 80% das necessidades dos usuários. Só que os 20% que faltam (segundo a "comunidade", meros "detalhes") são um pé no saco. Incomodam, irritam, dão muito mais trabalho e até mesmo impedem o uso, em casos extremos.
Não vejo nenhum problema em migrar, nas empresas, as estações de trabalho para Linux - para as necessidades corporativas, o Linux excede qualquer outro sistema em termos de custo, segurança, manutenção e mesmo usabilidade. Há clientes meus que migraram 100% de seu parque e estão satisfeitíssimos. Chegaram mesmo a
encerrar contas em bancos cujo
Internet Banking depende do Internet Explorer - afinal, essa é uma deficiência do banco, não do Linux.
Mas as empresas costumam ter um departamento de suporte ao usuário para resolver qualquer problema que possa ocorrer. No meio de todos os problemas técnicos sempre há aquele usuário que estava acostumado a "salvar no uôrd" e agora tem que usar o OpenWriter. Bem ou mal, o açúcar acaba assentando no açucareiro e no fim de 3 ou 6 meses tudo volta ao normal.
Para as pessoas em casa a coisa não é bem assim. Há problemas de usabilidade e compatibilidade que AINDA precisam ser resolvidos. E são problemas que impedem o usuário comum de ter uma boa experiência com o Pingüim.
Se você é um usuário e amante do Linux (como, aliás, eu sou também) vai dizer que muita coisa não é culpa do Linux ou do software livre, mas dos fabricantes de hardware ou de codecs que não abrem as especificações bla bla bla. Bem, acompanhe meu reciocínio por um pouco. Você verá que nem tudo é culpa dos outros e mesmo o que alegadamente é culpa dos fabricantes de hardware mostra algumas das fraquezas da "comunidade" do software livre.
Vamos lá.
Por mais que as usabilidade das interfaces gráficas do Linux (leia-se KDE, Gnome e XFCE) esteja melhorando a olhos vistos, certas coisas ainda precisam ser feitas na linha de comando.
Os usuários avançados não têm problema nenhum em
abrir um terminal e dar um comandinho de vez em quando. Mas para o usuário final não é assim - os comandos não são nada transparentes (
no news is good news) e é possível que ele sequer saiba onde está o terminal. Mesmo que o encontre, o
bash é um mundo novo, e a grande vantagem da interface gráfica é "já tá tudo na tela, não preciso ficar lembrando de comando algum".
Há também as "pequenas grandes" diferenças entre cada distribuição e mesmo entre um ambiente gráfico e outro. Deveria haver uma maior integração e mais padronização em todo o sistema desktop movido a Linux para que o usuário possa ficar mais à vontade. A pŕopria idéia de "ambiente gráfico" e "distribuição" é confusa pro usuário final.
Há alguns detalhes de implementação que parecem que são feitos só pra confundir o usuário novato. Exemplos? Vários.
Primeiro exemplo: montar e desmontar disquetes. Já está melhor do que sempre esteve. Mas, ainda assim, não está bom. Comparando com o Windows, esse pequeno exemplo mostra bem a proverbial falta de cuidado com que os desenvolvedores da "comunidade" tratam o usuário leigo.
No Windows, você põe um diquete no drive e vai no
Meu Computador. Lá chegando, tem um ícone com um disquetinho e uma legenda embaixo escrito
Drive de Disquete (A:). Talvez o "A:" pareça críptico para o usuário, mas ele saberá que, com toda certeza, é ali que ele tem que ir para "entrar no disquete".
Com dois cliques abre-se uma janela com o conteúdo do disquete. Para gravar coisas lá basta arrastar ali para dentro. Para pegar coisas lá de dentro, basta arrastar pra fora. A gravação das coisas é feita no momento em que você solta o ícone. O usuário sabe que basta esperar "a luzinha apagar" pra poder tirar o disquete.
Sem contar que ele tem acesso ao disquete de dentro do "salvar como" dos aplicativos. Já nas soluções livres...
No Linux, cada ambiente gráfico tem um jeito diferente de tratar isso. No KDE, por exemplo, você pode ir em um ícone chamado, também, de
Meu Computador - isso, claro, se a distribuição que você escolher possuir esse ícone. Abre-se uma janela com 4 ícones, mas nenhum dele é o ícone do disquete. Na barra de endereços não aparece escrito "Meu Computador", como era de se esperar - afinal, eu cliquei num ícone chamado "Meu Computador", não foi?. Em vez disso, é mostrado um indecifrável
system:/.
Se o usuário for a sua avó, ela já desistiu faz tempo. Se for um caboclo fuçador, ele vai fuçando até descobrir que o ícone
Mídia de Armazenamento (quem teve a idéia desse nome deveria ir estudar a interface do Mac OS...) leva a uma outra janela. Lá tem, entre outros ícones de nomes indecifráveis (há um que se chama simplesmente
"/", um outro se chama
"Mídia 20G", o que quer que isso queira dizer...) tem lá a tal da
Unidade de Disquete.
Dois cliques no disquete e ele "abre". Além de demorar MUITO MAIS para abrir do que no Windows, uma mensagemme informa que "
/dev/fd0 está sendo montado em /media/fd0". Que diabos é essa merda? Montado? Mas eu coloquei o disquete inteirinho lá dentro, porra! Na barra de endereços, o usuário é agraciado com outra localização deveras esclarecedora:
system:/media/fd0. Sim, claro, óbvio que isso aí é o disquete. Tá na cara...
Bom, agora eu vou arrastar coisas pra dentro do disquete. Nossa, foi bem rápido, não? Nem piscou "a luzinha do dráive". Que maravilha! Bom, o usuário é levado a pensar que está tudo ok e retira o disquete. Resultado:
além de nada ter sido realmente gravado no disquete (porque ele
precisaria ter sido
desmontado manualmente), sua retirada causa uma instabilidade tão grande no Konqueror que, em alguns casos, o KDE precisa ser reiniciado.
Voltando ao "Meu Computador". No Windows, basta clicar em "Meu Computador" e temos lá todos os drives da máquina, com nomes fáceis que o usuário leigo pode entender ou, ao menos, inferir. Se eu quero ver o conteúdo de um CD eu clico em
Drive de CD.
Tanto o KDE e como o Gnome têm coisas semelhantes. Só que no Windows vai estar escrito "Drive de CD". No KDE vai estar assim ó:
system:/hdd.
PÔ MEU! DÁ UM TEMPO!
Sei que vou receber centenas de contra-argumentos a respeito disso. Vou ser xingado até a quinta geração. Algumas pessoas vão até me dizer que isso é configurável. Mas é exatamente nesse ponto que vem a minha bronca:
É CONFIGURÁVEL? MAS ENTÃO POR QUE AS DISTRIBUIÇÕES NÃO CONFIGURAM ISSO JÁ DE FÁBRICA, _________ (ponha seu palavrão preferido aqui)?
Antes que o pessoal do Gnome e do XFCE comece a tirar sarro, com vocês não é muito melhor não!
E nem insinuem a palavra aculturação! Para muitas situações isso é verdade, o usuário se bate porque está acostumado com "o jeito Windows" de fazer as coisas. Mas em outras situações (que são, infelizmente, a maioria) não é questão de jeito não. A interação do sistema com o usuário é falha, deficiente e confusa.
Tem ainda muita coisa da qual não falei aqui - o kernel monolítico, por exemplo, que é outro pé no saco. Ou a falta de padrão entre as distribuições, o que dificulta (impede?) a difusão do Linux como plataforma, pois na verdade ele está fragmentado em diversas implementações semicompatíveis.
(Eu é que sei, cada vez que preciso do rc.local no Debian...)
Vou abordar isso tudo em outras oportunidades, pois este artigo já está ficando grande demais e difícil de ler.
O que me trinca os bagos é saber que toda a tecnologia necessária pra tornar o Linux e o software livre um sucesso no seio dos usuários domésticos já está disponível. O que está faltando é uma única coisa: que os desenvolvedores parem de ser vagabundos e preguiçosos, parem de olhar só para seus próprios umbigos, parem de coçar o saco e comecem a pensar no usuário.
A "comunidade" de software livre meteu na cabeça que só precisa de programadores. Ledo engano. Precisamos de profissionais de ergonomia, precisamos de marketeiros, precisamos de testadores de usabilidade, precisamos de lobbysta, precisamos de políticos - e, principalmente, precisamos que a "comunidade" deixe de ser arrogante e presunçosa e reconheça que tem falhas estruturais que precisam ser sanadas. Falhas que não tem nada a ver com excelência de software, mas com diversidade de recursos humanos.
O usuário comum quer um produto acabado. Um produto que funcione. Não um produto que não está pronto nunca. E, infelizmente, o software livre é, por definição, um eterno "beta" (
release early, release often). Até isso mudar, a Microsoft vai contiunuar empurrando o Starter Edition goela abaixo dos fabricantes nacionais de hardware - especialmente do PC para Todos.